Vitória pela vida: as lições de aldeenses que venceram a Covid-19

Entre o vai e vem de pacientes na Unidade de Saúde da Ponta do Ambrósio Kelly Costa da Silva retoma seu cotidiano e volta a exercer suas funções como enfermeira. Seguindo as medidas preventivas impostas pela pandemia, ela vive a nova “vida normal”, após vencer a batalha contra o coronavírus. De frente para a Lagoa de Araruama, com a vista de uma natureza que contempla e reforça o valor de cada dia de vida, ela se emociona ao lembrar da nova oportunidade de viver. Assim como as águas salgadas banham a margem, o rosto se entrega às lágrimas discretas, a cura chegou, mas os ensinamentos deixados pela Covid-19 não serão esquecidos. Uma das vitoriosas na guerra contra o vírus, que impactou todo o mundo, a profissional de saúde é um dos rostos que hoje podem sorrir após derrotar um inimigo invisível.

Após a batalha vencida contra a Covid-19, o sorriso largo estampa o rosto de Kelly. foto: Ryu Rodrigues
Após a batalha vencida contra a Covid-19, o sorriso largo estampa o rosto de Kelly. foto: Ryu Rodrigues

“Foram dias muito complicados para mim e para minha família. Meu filho, de dois anos, passou a sentir os sintomas, assim como meu marido e a minha mãe. Eu passei quatro noites sem dormir, não sabia se ajoelhava e orava, se levantava ou se andava pela casa. A gente sempre teve fé de que tudo isso ia passar, mesmo com as dores e a preocupação. Quando fiquei internada, tive muito carinho da equipe com a qual trabalho e no Pronto-socorro. É angustiante se tornar paciente. A gente sabe todos os procedimentos que precisam ser feitos, mas é muito difícil, mesmo com toda a confiança que a gente tem. A chegada da cura é um alívio”, revelou Kelly.

Reunindo histórias de esperança e superação, a Prefeitura de São Pedro da Aldeia traz depoimentos de cidadãos que se viram frente a frente com um diagnóstico positivo para Covid-19 e restabeleceram sua saúde.

O diagnóstico

Maria Coutinho tem um cotidiano muito semelhante à diversos aldeenses: tempo corrido, buscando formas de sustentar a família. O trabalho diário para cuidar dos filhos e o cansaço da rotina lhe tiraram a atenção aos primeiros sinais que o corpo apresentava demonstrando que algo não estava bem. Assim como tantos aldeenses, a mulher, de 40 anos achou que era apenas trabalho demais. “É triste, mas muitas vezes a gente não tem tempo de se cuidar. Você aprende a viver com uma dorzinha aqui, um cansaço ali e vai seguindo a vida, porque é isso que o trabalho corrido pede. Eu só percebi alguma coisa estranha quando não sentia cheiro de nada e a comida estava sem gosto”, relembrou.

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foto: Jefferson Viana

Do primeiro sintoma até o fim do isolamento domiciliar foram longos dias. A dona de casa, acostumada às tarefas e a ser extremamente receptiva, precisou reescrever seu dia a dia. Era a hora de cuidar de si mesma e se resguardar, o objetivo era estar 100% bem. “Tive medo de piorar e de não conhecer meus netos. Quando a gente percebe que tá melhorando é libertador. Você volta a recuperar sua saúde e o corpo já responde. Parece que a vida dá uma chamada na gente. Tem que ter esperança até o final, a gente se recupera e se torna um vencedor”, comemorou.

A vitória

Mais do que 430 aldeenses que venceram à doença, os curados da Covid-19 em São Pedro da Aldeia são símbolos de uma luta iniciada em 30 de março de 2020, data na qual o município registrou o seu primeiro infectado pelo coronavírus. Após quase cinco meses de batalha contra um adversário ameaçador, alguns pacientes enxergam uma nova oportunidade de vida após a plena recuperação da saúde.

Foto: Jefferson Viana

Cíntia Sereno, de 43 anos, ficou afastada do trabalho por longos 35 dias. A moradora aldeense lutou contra a Covid-19, mas viu o vírus chegar à sua casa e contaminar quatro familiares. Hoje ela comemora a vida e não se esquece de quem rezou por toda sua família. Agora curada, os obstáculos vencidos na batalha contra a Covid-19 abriram um novo prisma, a visão de quem é grato por estar vivo.

“Quando eu tinha 19 dias de infectada, pensei que já poderia voltar a trabalhar, mas descobri que estava com 50% do pulmão comprometido pela Covid-19. Tive que ser internada por cinco dias para um tratamento mais severo. A Covid-19 na minha vida foi muito difícil. Às vezes você pensa que é uma doença boba, mas quando recebe o diagnóstico e aparecem os sintomas, que são muito diferentes de tudo, você começa a repensar sua saúde”, disse a profissional, com mais de duas décadas de serviços prestados à enfermagem.

A Conscientização

Mesmo com os finais felizes, o discurso entre todos os pacientes curados é o mesmo. Não se pode normalizar os riscos do coronavírus, é preciso que a população abrace a responsabilidade da saúde coletiva, preservando a sua vida e a do próximo.

“O novo normal da nossa vida, após a infecção pela Covid-19, foi muito importante para que pudéssemos repensar como seria a nossa vida daqui pra frente. O nosso novo normal é sempre se cuidando e se prevenindo, tem a máscara, tem a lavagem das mãos com água e sabão e o álcool, mas tem que ter a consciência. A minha família está tendo uma nova visão de vida. Deus nos permitiu que a gente ficasse para contar o nosso testemunho. A cada dia eu agradeço por estar aqui e cuidando das pessoas que precisam”, lembrou Cíntia.

Ressignificar o tempo

A histórica da pandemia da Covid-19 redesenhou a vida de inúmeras famílias e ressignificou o cotidiano, trazendo novos valores e prioridades. Se antes os dias de folga eram voltados apenas ao descanso, agora Kelly valoriza cada segundo junto com os filhos. O cenário criado pela doença fez todo o tempo de vida ser avaliado. Com uma ambulância na porta da sua casa, Kelly saiu no portão sem saber como e o que a esperava. Mediante a sua saúde sendo posta à prova, a mãe, esposa e filha enxergou um novo significado para a vida.

Foto: Ryu Rodrigues

“Hoje a gente precisa valorizar e viver o dia como se fosse o último. Quando fui internada, eu deixei os meus filhos em casa com o meu marido também doente e, ali, eu não podia fazer nada. Era o desespero de uma despedida, na qual eu não sabia quanto tempo ficaria longe deles. Passou um filme na minha cabeça, que eu poderia ter exigido menos deles, ter brincado mais e aproveitado o tempo com eles. A gente não pode se prender tanto em ganhar dinheiro, mas em se dar para nossa família. Afinal, eu saí e voltei curada, mas a gente não tem certeza de nada na vida”, disse emocionada.

Coronavírus e os ensinamentos

Na área profissional, a enfermeira Kelly se viu completamente mudada. A humanidade com o paciente, mais do que nunca, está em primeiro lugar. Com o seio familiar recheado de amor, era a hora de reavaliar a profissão.

“Ao mesmo tempo que foi difícil estar no leito, foi uma experiência de crescimento. Eu estou há 18 anos na enfermagem e sempre pedia a Deus que tivesse uma profissão na qual eu pudesse estar apaixonada todos os dias. Estar paciente fez com que o meu amor pela profissão fosse ainda mais reavivado. A paciência e a necessidade de humanização com as pessoas foram recuperadas. O amor foi renovado para enxergar o outro de forma diferente, tratar o outro da forma como a gente gostaria de ser tratado”, relatou.

O curado

Para ser considerado curado, um paciente infectado pelo coronavírus deve apresentar mais de quatorze dias do exame positivo e mais 72 horas sem qualquer sintoma aparente, com pleno bem-estar. Sem um protocolo de testagem definido pelo Ministério da Saúde, a ausência de sintomas vem sendo adotada para justificar e respaldar a cura da Covid-19.

Com informações da ASCOM/PMSPA / Texto: Luana Macêdo / Fotos: Jefferson Viana e Ryu Rodrigues


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